RESENHA CRÍTICA
(Crianças invisíveis)
Cucinotta,
M. G., Tilesi, C., Veneruso, S. (Produtores), Charef, M., Lund, K., Kusturica, E., Charef, M.,
Veneruso, S.,Woo, J.; Lee, S., Scott, J., Scott, R. (Diretores) (2005).
Crianças invisíveis. [filme].
França/Itália.
Para
definir infância é necessário levar em consideração alguns aspectos que podem
fazer esse termo ganhar diversos significados. Cada indivíduo tem sua concepção
de infância a qual, geralmente, está pautada na sua experiência pessoal ou no ideal
que se cria para a mesma. Este documentário apresenta o cotidiano de crianças
que estão inseridas em contextos sociais, econômicos e políticos distintos, o
que faz da concepção desse termo algo muito mais complexo do que uma simples
fase da vida em que a brincadeira e a inocência assumem o protagonismo. O primeiro
contexto apresentado mostra crianças africanas que tem contato com a violência
e uso de armas fazendo parte de conflitos étnicos, políticos e econômicos, que
os tolhem de brincar e estudar. Uma cena muito curiosa é a que um dos garotos
entra na escola e responde as perguntas no quadro, é perceptível a vontade e o
sonho de poder fazer parte daquele ambiente. Outras cenas também denotam essa
ideia, como a que eles observam outras crianças brincando ou a que um deles
pega um estilingue, que mantém guardado, juntamente com outros objetos como
lápis e pulseiras coloridas, e os contempla como se almejasse brincar, porém,
sua condição atual não o permite. O segundo contexto é referente a uma criança
que cumpre pena numa instituição de reabilitação. É destacável a influência que
a família exerce sobre o indivíduo ainda em desenvolvimento. O garoto praticava
furtos, pois era obrigado pelo pai, que o agredia física e verbalmente caso ele
não o obedecesse. Por essa realidade vivida, ele almejava sair da cidade em que
seus pais moravam e ser cabeleireiro. Esse desejo era uma espécie de fuga das
condições que vivia com sua família e o no ambiente da prisão. Porém, as pressões
do meio o condicionaram a permanecer cometendo furtos. Na terceira parte do
documentário mostra o drama de uma criança portadora do vírus HIV transmitido
pelos pais, que são usuários de drogas. A garota sofre com o preconceito dos
colegas que a hostiliza humilhando-a constantemente. O que chama atenção nessa
situação é que, mesmo com todos esses fatores, os pais demonstram amor, o que,
de certa forma, transmite conforto, em alguns momentos. A quinta parte
documentada relata a vida de duas crianças brasileiras pobres que vivem por
conta própria catando e vendendo sucatas, e passam o dia tentando ganhar algum
dinheiro para poder comer. Destaca-se nessa parte a forma com que os garotinhos
lidam com sua realidade, para eles parece que é tudo uma brincadeira. A sexta
parte do documentário é a que mais se difere do todo, pois apresenta a história
de um adulto que fotografa cenas de guerras e, de forma enigmática, vê o mundo
como se fosse criança. Mostra, então, crianças em campos de refúgio tentando
sobreviver sem cuidados paternos. O sétimo e penúltimo contexto apresentado é de
um menino que sofre com as acuações de sua mãe e, como refúgio, encontra um
grupo de adolescentes que o ajudam a se alimentar, porém, através de pequenos
furtos. Foi intrigante perceber as diferentes opiniões da sociedade frente a
situações como essa. Quando o garoto rouba um senhor aparentemente rico,
algumas pessoas que se aglomeraram no local se pronunciaram julgando o menino
por sua atitude. Alguns optam pela prisão, outros ponderam a respeito da
condição social que pode tê-lo levado a tal circunstância. A última parte do
documentário relata a história de duas garotinhas que vivem em contextos
sociais diferentes, uma numa condição financeira mais favorável que a outra.
Mas as duas tem em comum o fato de que suas infâncias foram vividas
contrariando a ideia de infância ideal. A criança rica tinha muitos brinquedos,
porém não tinha com quem brincar, era carente de afeto e atenção materna. Já a
criança pobre, que foi achada no lixo por um catador, não tinha brinquedos, mas
recebia muito amor e atenção. Porém, quando o seu cuidador morre ela fica a
mercê de oportunistas que a coloca para trabalhar e vendendo rosas na rua. O
documentário Crianças Invisíveis mostra, no geral, que muitas crianças não
vivem o que nossa sociedade ocidental, no contexto histórico atual, define como
infância. É importante ressaltar que nem sempre a criança foi vista como
criança e o termo infância nem sempre existiu. O que hoje entendemos como
infância vem de uma transformação histórica, política, econômica e social que
nossa sociedade sofreu ao longo dos anos. O que podemos dizer a partir do
documentário é que, as crianças que muito cedo assumem responsabilidades, ou
que se tornam independentes dos pais, ainda nesse processo de desenvolvimento,
vivem uma concepção diferente dessa fase. São os processos do meio em que vivem
que vão inferir que tipo de infância tiveram. É interessante refletir, também,
que, embora muitas dessas crianças tenham vivido realidades hostis, perigosas
ou tristes, uma coisa todas tinham em comum: o desejo de brincar. Portanto, por
mais que pensemos a infância com relatividade, há alguns aspectos que farão
parte dela, independente do contexto. Cada um carrega em si suas concepções de
vida de acordo com o que se viveu. O mundo em que se vive influencia no modo de
viver, não como regra, mas como possibilidade.

Já assisti. Super recomendo.
ResponderExcluir